sexta-feira, 10 de maio de 2013

COM INVESTIMENTOS DE R$ 56 MILHÕES DO BNDES, COLETA SELETIVA NA CIDADE DO RIO NÃO CONSEGUE ALCANÇAR ÍNDICES DO LIXÃO DE GRAMACHO.



Antes do enceramento do "Lixão de Gramacho" quando os índices de resíduos destinados para reciclagem giravam em torno de 3 a 5% no estado do Rio de Janeiro, a Comlurb (que  apresentava esses números como seus) tinha como meta aumentar esses percentuais em 5% ao ano, para atingir 25%  em 2016. Em reportagem veiculada esta semana pelo telejornal matinal "Bom dia Rio" mesmo diante de um constragindo  repórter, o Coordenador geral de coleta seletiva da cidade do Rio de Janeiro  Sr. Fernando, admitiu que ao retirar da casa dos moradores, fogões, geladeiras, armários, aparelhos de ar condicionado e outros materiais potencialmente recicláveis, encaminham tudo para ser aterrado na CTR de Seropedica, questionado pelo repórter se esse tipo de material não deveria ser encaminhado para reciclagem, à reposta foi; " Ah devido ser um grande volume nós não temos condições de fazer isso não, vai tudo pro Aterro mesmo" Bom fazendo uma conta simples, se em 2012 o índice de reciclagem na cidade girava em torno de 5% e hoje mesmo com investimentos no valor de R$ 56 Milhões do BNDES, o índice de resíduos encaminhado para reciclagem pela COMLURB despencou de 5% ou 3% para  1,4% significa que o "Lixão de Gramacho" era responsável por dois terços de toda reciclagem realizada na cidade.Como assim!!?? Onde foi parar os R$ 56 Milhões do BNDES ??!!! Enquanto a Comlurb assume publicamente que mesmo com todo o investimento do BNDES enterra sim o material da quase insignificante coleta seletiva realizada na cidade,
as cooperativas de catadores de Jardim Gramacho vem tentando desesperadamente negociar com a Comlurb o abastecimento do "Pólo de Reciclagem de Jardim Gramacho", o abastecimento das cooperativas já havia  sido acordado na época do encerramento do "Lixão", mas a COMLURB sem uma explicação plausível  vem se negando sistematicamente a cumprir  o que foi  acordado. As seis Cooperativas de Catadores que fazem parte do "Pólo de reciclagem de Gramacho" ainda sofrem com a incerteza do abastecimento. O complexo de galpões que abrigará cerca de 550 catadores quando funcionar em sua totalidade,tem sua inauguração prevista para Junho deste ano.


Em entrevista ao Blog, Ana Paula Serafim da Silva catadora , Presidente da Coopergramacho uma das cooperativas que estão no Pólo disse; " É muito frustante, passamos os últimos dois anos discutindo a transição dos catadores para o Pólo a Prefeitura do Rio que mesmo convidada  sempre se recusou a sentar na mesa de negociações, e só aceitou a negociar na época do encerramento, por que era do interesse deles fechar antes da Rio +20, vem dificultando muito nossas vidas as vezes da vontade de desistir. A quem interessa aterrar material ? O que a cidade ou o meio ambiente ganha com isso ? Acabaram com nosso emprego com a alegação de que era perigoso e fazia mal ao meio ambiente e aterrar material reciclável  em outro local é melhor? Faz bem pra quem?? E é com essas perguntas que nos despedimos.

Por: Glória C. Santos
Fotos: Alexandra G. Viana/Acamjg

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Jardim Gramacho: Duque de Caxias abandona R$ 700 milhões no lixo


Análise superficial da estrutura de cálculo na composição dos preços dos créditos de carbono no mercado internacional, projeta uma arrecadação mínima de U$ 350 milhões podendo ultrapassar U$ 1 bilhão, com o fechamento do aterro de Jardim Gramacho.

O mercado de crédito de carbono funciona sob as regras do Protocolo de Quioto flexibilizando conceitos que auxiliem a redução das emissões de gases do efeito estufa. Dois mecanismos, MDL ( Mecanismo de Desenvolvimento Limpo ) e (MEC) Mercado de Emissões de Carbono permitem a um projeto que tenha reduzido suas emissões a níveis abaixo da meta possa vender esse “excesso”.

Os créditos de carbono conhecidos como RCE (Certificados de Redução de Emissão) funcionam como uma espécie de “títulos”, certificados de emissão de gases do efeito estufa ( são 6) , chancelados por agencias especializadas credenciadas pela ONU, e comercializados em bolsas de valores, fundos ou através de ‘brokers”. Os compradores são empresas ou governos de países desenvolvidos que precisam alcançar metas (instituídas pelo Protocolo de Quioto) de redução destas emissões, e os vendedores são diversificados dependendo do país de origem do projeto. O “produto” é medido por tonelada de dióxido de carbono reduzida. A compra e venda de créditos se dá a partir de projetos ligados a reflorestamentos, ao desenvolvimento de energias alternativas, eficiência energética e controle de emissões como é o caso do fechamento do aterro do Jardim Gramacho.
O encerramento das atividades do maior lixão da América do Sul, localizado em Duque de Caxias, vai eliminar a emissão de 75 milhões de toneladas de gás metano nos próximos 15 anos ( fonte Nova Gramacho Engenharia Ambiental). Como o metano é 21 vezes mais pesado que o gás carbônico o fim de sua emissão vale mais no mercado e vai gerar milhões de dólares de arrecadação. Para se ter uma ideia do que podem representar estes valores abaixo apresento uma tabela dos preços oferecidos pelos países desenvolvidos por toneladas ( 2008/2010):
Japão……………………………………………….US$ 584
União Européia…………………..US$ 273
Estados Unidos………………………………….US$ 186

* Por tonelada de carbono dependendo das características do projeto.

De 2008 a 2010 foram negociados US$ 160 bilhões com créditos de carbono no mercado internacional. A partir de 2007 a prefeitura de São Paulo realizou vários leilões e já arrecadou mais de R$ 75 milhões com a captação do gás metano, que era emitido pelo Aterro Bandeirantes. No primeiro leilão o preço apurado com a venda do CO² foi de 16,20 Euros a tonelada. Bandeirantes recebia metade dos despejos do aterro de Jardim Gramacho.
No Brasil , segundo a empresa especializada Ecosecurities, o preço mínimo praticado por tonelada é de US$ 5 dólares, em função dos riscos de não execução dos projetos propostos. Mas no caso do aterro do Jardim Gramacho este risco é zero uma vez que o mundo assistiu e registrou o seu encerramento e estudos técnicos comprovam não haver a mais remota possibilidade de reativação do vazadouro. O processo de certificação está em curso e é irreversível. Ainda que, usando o pior dos cenários, fossem arrecadados apenas 5 dólares por tonelada (Bolsa de São Paulo), teríamos (75 milhões x 5) US$ 37.2 milhões de dólares convertidos para o real chegam a mais de 700 milhões em 15 anos. Este dinheiro pertence á população de Duque de Caxias, já que o passivo ambiental ocorreu em nosso território e a área é terra da União, reivindicada de forma ilegítima pela COMLURB. O município é protagonista deste projeto. Com 700 milhões construiríamos 20 hospitais idênticos ao Moacir do Carmo, ou 150 escolas para atender mais de 65 mil alunos, ou 300 creches, ou 100 postos de saúde.
É incompreensível que a prefeitura de Duque de Caxias, mergulhada em sua pior crise financeira, com desequilíbrio fiscal e orçamentário e com dificuldades de pagar o salário de R$ 620 a um gari para varrer uma rua, abra mão de um direito, sem brigar, sem questionar e sem se mobilizar para reivindicar um inalienável direito sobre 700 milhões de reais. O repasse deste dinheiro, em parcelas anuais, fará justiça aos moradores do entorno do lixão, vítimas do arbítrio que degradou o bairro com a circulação de mais de 300 carretas. O intenso e sistemático fluxo diária de veículos pesados por mais de 30 anos na Av. Monte Castelo e adjacências deixou um trágico saldo de mortes por atropelamento, os piores índices de doenças respiratórias em crianças da região, doenças infecto-contagiosas, rachaduras nas paredes das casas e do comércio e a mais emblemática degradação ambiental do último século na América Latina. A “cultura do lixo” estimulou a criação de mais de 200 “aterrinhos” clandestinos que continuam funcionando a pleno vapor, provocando danos ambientais até hoje.
A cidade do Rio de Janeiro, a COMLURB e a empresa Novo Gramacho Engenharia Ambiental dividem, sorrateiramente, “o luxo do espólio” deixado pelo lixo, excluindo de justa reparação os moradores do Jardim Gramacho, maiores vítimas do flagelo que impuseram á cidade de Duque de Caxias.
Enquanto isso, o Secretário Municipal de Meio Ambiente não se recicla, abandona os interesses da população na lixeira, para passar horas intermináveis á frente de um computador se digladiando no Facebook com cidadãos indignados que reclamam do lixo acumulado em suas portas, e, aos quais, acusa de “conspiradores da oposição”. Financiado pelo dinheiro do contribuinte.
E o governo municipal? Mantém um silêncio sepucral.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Após mais de um ano e meio do encerramento,Catadores do antigo lixão de Itaoca ainda lutam para conseguir sustento.


Para atender à Lei 12.305/10, que instituiu a Política Nacio­nal de Resíduos Sólidos, o Rio se esforça para exterminar os lixões até agosto de 2014. Se por um lado o Estado se colo­ca na liderança ambiental, fe­chando a maior parte dessas áreas, por outro sofre para resolver um passivo social: o que fazer com cerca de 40 mil pessoas de 60 municípios que dependem dos resíduos que retiram destes lugares.

Depois de denúncia de ca­tadores de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo, foi implanta­da na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), na quinta-feira, uma Comissão Especial pa­ra acompanhar e fiscalizar o cumprimento da lei federal. Nesta semana, os parlamen­tares vão definir o cronogra- ma de visitas aos catadores desses municípios. Depois, o grupo também irá às outras áreas do Estado. Um dos prin­cipais problemas é a região onde existia até o ano passa­do o lixão de Itaoca, em São Gonçalo, um dos maiores do Estado depois de Jardim Gramacho.

“Nossa principal forma de renda foi fechada há mais de um ano e fomos deixados de lado. Não sei mais o quê mos­trar para que a sociedade se conscientize de que precisa­mos de ajuda. Ninguém preci­sa ir muito longe se quiser co­nhecer a África”, disse Adeir Albino da Silva, o Nem, repre­sentante dos 800 trabalhado­res de Itaoca, que abriga mais de 2,5 mil moradores.

Segundo o presidente da comissão, deputada Janira Rocha (PSol), o principal objetivo do colegiado será auxiliar os catadores de lixo na defasa de seus direitos - principalmente, no que diz respeito à ca­pacitação técnica, prevista na lei, e à criação de infraestrutura adequada nas áreas de sub­sistência dos trabalhadores.


No caso de Itaoca, desde o ano passado havia a promes­sa de inclusão no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) e inscrição no Bol­sa Família. Porém, a demora na conclusão dos cadastros, nas esferas estadual e federal, impede que os catadores te­nham acesso a benefícios.

“Eles precisam garantir acesso à alimentação, água e saúde. Vamos organizar um mutirão para atender es­sas pessoas. Há casos graves lá, como gente com câncer, hanseníase e tuberculose”, diz Janira, que se reuniu com técnicos da Universidade Fe­deral Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) para fazer uma análi­se dos lixões do Estado.




terça-feira, 22 de janeiro de 2013

É tempo de reciclar: nova política abre oportunidades de renda para catadores

Depois de duas décadas de debates e discussões, foi sancionada, em agosto de 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Muitas oportunidades se abrem e diferentes setores da sociedade se organizam para a sua implantação, em 2014.


Pode parecer algo distante, mas a aplicação da lei 12.305/10 vai afetar diretamente o dia-a-dia de todos os brasileiros. O primeiro, e mais evidente, ganho é o ambiental. Destinar o lixo de forma correta e apostar na reciclagem de embalagens e produtos eletrônicos, por exemplo, poupa o consumo de recursos naturais renováveis e não renováveis e diminui a poluição de rios e mares, entre outros benefícios.
Mas outros ganhos, inclusive financeiros, podem surgir com a aplicação da lei a partir de 2014 – coincidentemente o ano em que o Brasil abrigará um dos maiores eventos do Planeta: a Copa do Mundo. Oportunidades de geração de emprego e renda para catadores de materiais recicláveis, por exemplo, estão na ordem do dia.
O Plano prevê a remuneração ao catador por serviços ambientais prestados: em vez de receber apenas pela venda do material recolhido, ele pode receber também pelo serviço de coleta seletiva feito nas cidades. Um reconhecimento e tanto do trabalho dos cerca de 500 mil trabalhadores e trabalhadoras que sobrevivem da coleta e comercialização de resíduos sólidos nos grandes municípios do País, segundo o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCMR).
Trabalho majoritariamente informal, que pode ter um futuro diferente com as possíveis parcerias que serão formadas entre as associações de catadores, empresas e Poder Público. O modelo já funciona em cidades como as paulistas Diadema e Ourinhos, onde cooperativas e associações de catadores são parceiras da Prefeitura ou das empresas que realizam a coleta seletiva. E, assim como as empresas licitadas são remuneradas pelo material coletado, os catadores também serão.

Do papel para a prática

“O grande desafio que temos pela frente é a própria implantação da coleta seletiva”, alerta Tião Santos, presidente do MNCMR. “A lei é federal, mas sua aplicação depende diretamente de cada município, pois são eles os responsáveis pela destinação do lixo. E, infelizmente, ainda falta entendimento aos gestores públicos quanto à importância do tema”.
Na avaliação de Tião, a lei traz muitos avanços e é benéfica para todos. “Sua aplicação não pode ser burocrática. O impacto positivo na vida da população é real e por isso precisa do envolvimento de todos”, diz.  O caminho para atingir este objetivo é um só, na opinião do presidente do MNCMR: educação.
E não é preciso tornar-se um expert na Lei para perceber que nela constam avanços que pressupõem uma profunda mudança na forma como o lixo é tratado hoje: além de reconhecer a prestação diferenciada de serviços pelos catadores, a Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê o fechamento dos lixões até 2014, institui o conceito de “logística reversa” e a diferenciação entre resíduos e rejeitos.
Entendendo os conceitos

Resíduo é o lixo que pode ser reaproveitado ou reciclado. Já o rejeito é o lixo que não é passível de reaproveitamento e que, acredite, representa apenas 10% do total de descartes feitos no Brasil – percentual que deve ser destinado a aterros sanitários devidamente preparados para este fim.
Mas um dos grandes avanços que especialistas apontam na lei é a instituição da “logística reversa” – processo que retorna os produtos descartados aos grandes fabricantes. Assim, uma empresa de refrigerantes, por exemplo, terá responsabilidade sobre os milhões de garrafas pets que comercializa anualmente e que são jogadas indevidamente no meio ambiente. Não é à toa que a moda das garrafas retornáveis está voltando…
Mas engana-se quem pensa que apenas o poder público, por meio das prefeituras, e as empresas fabricantes são responsáveis pela destinação correta do que é descartado. O cidadão comum tem o dever de separar o seu lixo corretamente e encaminha-lo para a reciclagem.
“É uma mudança de conduta que precisa ser colocada em prática já. Acho horrível quando alguém diz que esta é uma tarefa das gerações futuras. Como vou responsabilizar minha filha por uma postura errada que estamos tendo agora?”, questiona Tião Santos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Projeto beneficiará três mil catadores de materiais recicláveis no estado do Rio de Janeiro

O Globo

RIO - Cerca de três mil pessoas que vivem da coleta de material reciclável serão contempladas pelo projeto Catadores e Catadoras em Redes Solidárias, que tem o objetivo de fortalecer a cadeia de reciclagem e a qualificar profissionalmente os catadores. A execução do programa será iniciada a partir da próxima segunda-feira, com a assinatura de um convênio de parceria entre a Secretaria de Estado do Ambiente (SEA), o Centro de Estudos Socioambientais Pangea e a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Parte dos catadores que serão atendidos é oriunda do lixão de Gramacho, fechado em junho.
Para a sua execução, o projeto conta com cerca de R$ 10 milhões do Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam) e da Secretaria Nacional de Economia Solidária, do Ministério do Trabalho e Emprego (Senaes/MTE). Com duração de 36 meses, o projeto de inclusão socioprodutiva de catadores do estado do Rio vai atuar em quatro eixos principais. Um deles será a mobilização dos catadores para que se organizem em 41 municípios de seis regiões, visando a contratação deles pelas prefeituras e por grandes geradores de lixo. No segundo, será oferecida assistência técnica, jurídica e comercial para 50 cooperativas. Também serão formadas ao menos seis redes de cooperativas (uma em cada região), para maximizar o potencial produtivo e econômico da cadeia da reciclagem. E, por último, haverá avaliação e monitoramento de todas as ações voltadas aos catadores, tendo como produto final uma mostra de fotografias e um documentário.
Caberá ao Pangea a execução do projeto junto aos catadores. E, à FGV, o monitoramento de todo processo. A coordenação geral é da SEA, que articulou a captação dos recursos necessários.



Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/rio/projeto-beneficiara-tres-mil-catadores-de-lixo-7061539.html#ixzz2FJuXwx5d

domingo, 9 de dezembro de 2012

O drama do entulho eletrônico A obsolescência programada, que faz tudo ficar velho antes da hora, é o alimento para um dos grandes problemas ambientais de nosso tempo

Catadores em ação em Gana: metais que liberam gases tóxicos e informações sigilosas são removidos dos produtos depositados no maior aterro tecnológico do mundo.


Nos movimentados portos de Karachi, no Paquistão - o homônimo Karachi e Qasim -, cargueiros provenientes de Dubai transportam contêineres com peças velhas e quebradas de computadores. O lixo eletrônico recolhido vem dos Estados Unidos, Japão, Austrália, Inglaterra, Kuwait, Arábia Saudita, Singapura e Emirados Árabes. 


Esse material (carcaças de discos rígidos, monitores, impressoras ou mesmo aparelhos inteiros) é reciclado no bairro de Sher Shah, onde se separa o joio do trigo. Ali, mais de 20 000 pessoas vivem da reciclagem, que é feita sem cuidados com o meio ambiente ou com a saúde. Sher Shah tem o mais alto índice de casos de câncer de pulmão e de problemas respiratórios do país, por causa da inalação de gases tóxicos, emitidos durante o processo de separação das peças. "O quilo de metal extraído na reciclagem do lixo eletrônico é comercializado a 120 rupias, ou 1,40 dólar", diz Madhumita Dutta, da organização Toxics Link India. Em Gana, na África, o quadro é semelhante. 

O subúrbio de Agbogbloshie, da capital do país, Acra, é talvez o maior aterro eletrônico do mundo. É chamado pelos moradores de "Sodoma e Gomorra". No local, gangues fazem pente-fino em drives de computadores, laptops, palmtops, tablets e smartphones provenientes dos Estados Unidos e da Europa, em busca não só de material a ser vendido, mas também de informações sigilosas dos antigos proprietários. Os dados, que permanecem em geral intactos no computador, mesmo obsoleto, são usados depois em golpes pela internet. "O lixo eletrônico é um dos problemas de mais rápido crescimento no mundo", disse a VEJA a consultora Leslie Byster, da ONG International Campaign for Responsible Technology (Campanha Internacional pela Tecnologia Responsável). 

O MAPA-MÚNDI DO FERRO VELHO, as idas e vindas do chamado e-lixo (em toneladas por ano) 

Apesar de a Convenção de Basileia, na Suíça, em 1989, ter proibido o movimento entre fronteiras de resíduos perigosos (entre os quais as sobras eletrônicas), a legislação e notoriamente driblada pelos exportadores de traquitanas com chip, que etiquetam a carga como doação de equipamentos usados. O relatório ambiental de 2010 da ONU sobre lixo tecnológico calcula que são produzidos anualmente 50 milhões de toneladas. O relatório também prevê que o volume de dejetos procedentes de computadores abandonados crescera 500% em países como Índia, China e África do Sul ate 2020. O Brasil, o México e o Senegal são, entre as nações em desenvolvimento, os campeões mundiais de e-lixo per capita, com 0,5 quilo anual produzido por habitante. 

O quadro brasileiro pode ser ainda mais grave. Segundo a professora Wanda Gunther, da Faculdade de Saúde Publica da USP, faltam dados e estudos nacionais amplos sobre o problema. mas o crescimento econômico fará aumentar a podridão eletrônica, em um caminho natural — e saudável, ate que provoque sujeira — do capitalismo. As pessoas tendem a trocar seus produtos, passando a frente os já velhos e ultrapassados. Querem o novo, e o destino final do que já não presta, ou não tem interessados na cadeia econômica, e o descarte.

Simples assim. O nome do jogo, nesse caminho, e obsolescência programada, recurso de administração desenvolvido nos anos 20 pelo americano Alfred Sloan, então presidente da General Motors. Sloan criou um mecanismo, hoje tão natural que parece ter existido desde tempos imemoriais, de modo a atrair os consumidores a trocar de carro frequentemente, tendo como apelo a mudança anual de modelos e acessórios. Bill Gates, fundador da Microsoft, usou a estratégia nas atualizações do Windows, o onipresente programa de computador. Mais recentemente, a obsolescência programada virou regra nos produtos da Apple. O iPad foi lançado em janeiro de 2010. em marco de 2011, surgiu o iPad 2. Ha rumores de que já em fevereiro de 2012 seja anunciada a versão 3. Não tardará que cheguem aos lixões do Paquistão e também aos da África, rejeitados. No início dos anos 90, a vida media de equipamentos eletrônicos nos estados Unidos era de quatro anos, num casamento entre a qualidade do material usado para o hardware e a espantosa velocidade de desenvolvimento dos softwares. 



Hoje, a vida media é de um ano e meio. Segundo Neil maycroft, professor da Lincoln School of Art & design, da Inglaterra, a curta existência dos aparelhos e resultado de dois fatores. "de um lado, os produtos são feitos para durar pouco. De outro, ha a obsolescência estilística", diz. "Somos regidos pela cultura de trocar a cada ano de modelo — de computador, de tablita, de celular — quando o antigo ainda funcionava muito bem", diz maycroft. Trata-se de uma das características mais evidentes de nosso tempo, o efêmero a impor hábitos. Não e postura necessariamente danosa, e sim produto da agilidade da tecnologia ancorada nos espetaculares avanços dos microprocessadores associados a internet. Segundo o instituto de pesquisa Gartner, 364 milhões de PCs e 468 milhões de celulares e smartphones serão vendidos globalmente ate o fim deste ano. E um mar de equipamentos que presumivelmente engrossara as estatísticas do lixo tecnológico ate 2014. O nó eletrônico parece um nó górdio — impossível de desatar. "E necessária uma legislação internacional mais rigorosa sobre o problema", diz Leslie byster. Porém, como salienta o especialista em sustentabilidade britânico James Clark, da Universidade de York, não haverá solução sem a conscientização das vantagens econômicas envolvidas na reciclagem do lixo eletrônico. "o Japão, graças a um programa benfeito de reaproveitamento de equipamentos, hoje acumula três vezes mais ouro, prata e o metal índio (usado na fabricação de telas de cristal líquido e painéis solares) do que o mundo usa anualmente", diz Clark. Iniciativas como a japonesa, na contramão da deposição pura e simples, numa selva de malversações e contrabando, alimentam um negócio interessante, e de futuro, desde que organizado e com regras claras. O mercado de reciclagem do lixo eletrônico crescerá dos 5,7 bilhões de dólares atuais para 15 bilhões de dólares até 2014. Há solução para o drama do lixo eletrônico, e ela é limpa.




segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Prefeitura realiza capacitação para Limpa Brasil com o catador Tião Santos


Prefeitura de Vitória está preparando três capacitações para conquistar os voluntários interessados em fazer coleta seletiva de resíduos durante a campanha Limpa Brasil "Let´s Do It", no próximo dia 25.
A campanha vai trazer a Vitória um dos principais protagonistas desse mutirão, o catador de resíduos Tião Santos, presidente da Associação de Catadores de Material Reciclável de Jardim Gramacho (RJ) e protagonista do documentário "Lixo Extraordinário".
Ele vai dar uma palestra no próximo dia 23 (sexta-feira), das 7 às 8 horas, na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Rita de Cássia, situada em Resistência. Ele falará para estudantes e voluntários sobre o movimento que incentiva as pessoas a jogar o lixo no lugar certo e a sua participação como catador.
No mesmo dia, das 15 às 17 horas, Tião Santos vai dar palestra no auditório do Centro Esportivo Tancredão, situado em Mário Cyprestes. Ele falará sobre as ações do Limpa Brasil e sobre a importância de conscientizar as pessoas a respeito do descarte correto dos resíduos sólidos.

Servidores

Os servidores da Prefeitura de Vitória também serão convidados a participar ativamente. Nesta segunda-feira (19), a partir das 14 horas, no auditório Zemar Moreira Lima, haverá uma capacitação dos funcionários para informar sobre a campanha e as maneiras de ser um catador.
E nesta terça-feira (20), das 9 às 12 horas, a capacitação será dada aos supervisores dos agentes de combate às endemias, no Centro de Vigilância em Saúde Ambiental (CVSA), antigo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), em Resistência.

Tião Santos

Natural de Duque de Caxias (RJ), Sebastião Carlos dos Santos, 32 anos, teve papel de destaque no filme que concorreu ao Oscar este ano. Seu documentário, "Lixo Extraordinário (Waste Land)", lançado no ano passado, foi produzido entre 2007 e 2009 no Aterro Controlado de Gramacho, onde trabalham cerca de 2 mil pessoas, e transformou a vida desses trabalhadores.
Devido à atuação e a essa indicação, Tião atingiu a fama e vem ajudando o trabalho dos catadores, número estimado em cerca de 800 mil pessoas em todo o Brasil, segundo o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, do qual também faz parte desde os 11 anos de idade.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Os desafios de Tião Santos, um verdadeiro ambientalista.


SOS Planeta entrevista por telefone Tião Santos,
Presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho o maior da América Latina; integrante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, coordenador Nacional de Logística do Movimento Limpa Brasil e protagonista do documentário Lixo Extraordinário, de Vik Muniz, indicado ao Oscar em 2011.
Tiao Santos, você é presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho. Como é desenvolvido seu trabalho junto a associação?
O trabalho iniciou em 2004, a Associação passou a existir juridicamente em 2006, com objetivo de melhorar a qualidade de vida dos catadores. Tento ajudar da melhor maneira possível, para que a profissão dos catadores seja valorizada.
Esperamos que aconteça logo a inclusão dos catadores na implementação da coleta seletiva e da logística reversa, previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos. Assim, cada resíduo pode ter seu destino correto e o catador trabalhar de forma adequada, sem sofrer discriminação.
 Quantas pessoas trabalham no Jardim Gramacho e como é trabalhar com elas?
1700 pessoas trabalham como catadores. No inicio era complicado.
Depois conseguimos construir um polo de reciclagem e ações para qualificar os profissionais.
Muitas pessoas ainda cobram ações que dependem de politicas publicas e privadas.
Eu compreendia as cobranças, as expectativas eram enormes, e ai as pessoas confundiam, esperando eu resolver tudo.

 Tião Santos, você também coordena o Limpa Brasil, como é esse projeto?
Esse projeto tem como objetivo mobilizar pessoas para realizar um mutirão de limpeza em várias cidades brasileiras, é um projeto internacional. Foi criado na Estônia, pequeno país da Europa onde o movimento original se chama “Let’s do it” em português significaVamos Fazer. Aqui no Brasil estamos trabalhando a educação ambiental ensinando a população a se educar, não jogar lixo no chão, ensinando a ser um catador por um dia para ver a importância que tem um catador de material reciclável.
 Como você vê hoje a colheita seletiva no Brasil? No seu ponto de vista o que a população deveria fazer para reciclar melhor o seu próprio lixo, isso é possível?
Hoje o Brasil produz 280 mil toneladas de lixo e só 40% são reciclados, o País deixa de ganhar 8 bilhões por que não recicla. E importante a sociedade ter uma consciência ambiental. Numa pesquisa feita pela nossa cadeia produtiva de reciclagem, descobrimos que 52% da população deseja fazer a coleta seletiva, mas não o faz por que não tem apoio da estrutura municipal.
Metade da população não sabe separar o lixo, está faltando educação ambiental, sensibilidade e infraestrutura. A sociedade não foi educada para isso e não está sendo feito como deveria, se você ensina uma criança a cuidar do lixo de sua casa, com certeza ela vai ser um ”adulto sustentável”.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

UMA QUESTÃO DE VIDA ÚTIL.Chegou a hora de combater a obsolescência programada.




Em uma natureza em que tudo se transforma, o homem não só inventou o lixo como a tecnologia capaz de fabricar produtos cada vez mais modernos e que duram cada vez menos. Chegou a hora de combater a obsolescência programada

O boom econômico do Brasil dos últimos 15 anos esconde números impressionantes. Somos um país de 190 milhões de pessoas e 240 milhões de telefones celulares. Consumimos 
2,5 milhões de novos carros e 2 milhões de novas geladeiras a cada ano – e esse número continua crescendo. Geramos 370 mil toneladas anuais de lixo eletrônico, o mais alto índice produzido por habitante entre os países emergentes, superando a China e a Índia. É a nossa singela “contribuição” para os 40 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos anuais produzidos no mundo, a maioria repousando em imensos cemitérios tecnológicos de países pobres.

Um dos principais motivos dessas taxas espantosas de poluição é pouco discutido e está envolto numa névoa de teorias conspiratórias: a obsolescência programada. Na linguagem simples, trata-se da estratégia da indústria de bens de consumo de fabricar produtos com uma vida útil curta, predeterminada desde sua concepção, a fim de manter o ciclo de consumo girando rapidamente.
Exemplos da perversidade desse modelo estão reunidos no documentário Comprar, tirar, comprar, lançado em 2010 pela cineasta norueguesa Cosima Dannoritzer. “Essa estratégia está disseminada desde a fabricação de produtos com data para acabar até o estímulo psicológico que a propaganda promove convencendo as pessoas de que elas precisam de coisas novas”, diz a diretora do filme.
O fio condutor do documentário, produzido na Espanha, se baseia no périplo de um cidadão comum que tenta consertar sua impressora, que deixou de funcionar abrupta e misteriosamente. Quando busca assistência técnica, o homem ouve que é mais barato comprar um produto novo do que consertar o que possui. Intrigado, ele sai à caça de explicações e formas alternativas de resolver o problema da impressora. Constata, por fim, que um chip bloqueia o equipamento após cinco anos de uso ou 18 mil impressões. O motivo alegado pela fabricante, ao cabo das investigações do filme, é zelar pela “segurança” do usuário. Ninguém explica, porém, que tipo de risco ele correria ao imprimir a página 18.001.
A obsolescência foi posta em prática pela primeira vez em 1924, quando um lobby promovido pela indústria de lâmpadas definiu que o tempo de duração do produto deveria baixar de 2,5 mil horas para mil horas por lâmpada, a fim de aumentar as vendas. Quem contrariasse a política era punido pelos sindicatos. Em 1940, a meta estava consolidada. “Passamos a desejar coisas que não precisamos. Há uma ideia vigente, hoje, de que o bem-estar está ligado a ter um objeto. Valoriza-se muito a ideia de que ter algo é o que nos define”, avalia Nina Orlow, urbanista da Rede Nossa São Paulo que participa da Agenda 21 local, projeto decorrente da Rio 92, que busca implantar práticas sustentáveis regionalmente – incluindo estudos sobre o impacto do lixo. Num ciclo que se retroalimenta, a substituição cada vez mais veloz de produtos por novas versões acaba levando itens em condições de uso para o lixo.
“Sabemos que uma grande quantidade de equipamentos eletrônicos usados é jogada fora – e acaba indo parar em aterros locais ou, em alguns lugares, é até incinerada. Quantidades menores são destinadas a pequenos recicladores, algumas acabam sendo reutilizadas e outras são desmontadas para uso de cada um dos componentes”, escreve a norte-americana Elizabeth Grossman em seu livro High tech trash: digital devices, hidden toxics, and human health (“Lixo high tech: dispositivos eletrônicos, elementos tóxicos escondidos e saúde humana”, na tradução livre). Lançado em 2002, o livro resume uma situação apenas agravada, dez anos depois de chegar às livrarias.
Apesar de se referir ao mercado norte-americano, a descrição de Elizabeth se aplica perfeitamente ao Brasil de 2012. Segundo estimativa da entidade Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), menos de 10 toneladas de lixo eletrônico são recicladas no Brasil por ano. “Há uma falta de ação dos consumidores em devolver esses materiais para a indústria”, afirma André Vilhena, diretor executivo da entidade. O Cempre é composto de empresas dispostas a encontrar formas de diminuir o impacto no planeta pela venda de seus produtos.
Consumir menos, produzir melhor
Esse cenário prova a necessidade de nós, consumidores, reavaliarmos a maneira como consumimos o que a indústria nos oferece. “A economia não irá funcionar por muito mais tempo dentro dessa lógica”, afirma Cosima. Algumas iniciativas têm surgido nesse sentido. Uma delas, pautada pela biomimética, propõe a criação de processos produtivos e de consumo mais orgânicos. A teoria foi detalhada em Cradle to cradle: Remaking the way we make things (“Do berço ao berço – refazendo a maneira como fazemos as coisas”), livro do arquiteto norte-americano William McDonough e do químico alemão Michael Braungart. A dupla propõe que a indústria seja ecoeficaz.
Ou seja: não basta usar matérias-primas “menos piores” no impacto ao meio ambiente. Mas, sim, adotar saídas ecossustentáveis que tornem o produto ainda mais atrativo ao consumidor, sem gerar resíduos não reaproveitáveis. Isso aumenta a satisfação do consumidor, o tempo de uso dos produtos e permite que, ao fim do uso, eles retornem ao ciclo produtivo de forma orgânica, sem poluir. Como exemplo, o próprio exemplar físico de Cradle to cradle: feito de um papel especial, impresso com tinta não tóxica, o livro pode ser dissolvido num polímero de alta qualidade e, assim, facilmente reinserido na cadeia produtiva. Ou mesmo virar adubo.
"A ideia de descartar produtos com boas condições de uso está disseminada, desde a fabricação de novidades com data para acabar até a propaganda que nos convence a comprar tudo de novo"
“Estou muito animado com o crescimento da aceitação e adoção que nossa visão está tendo”, diz Braungart. “As pessoas estão mais familiarizadas com materiais como esses e estão mudando o foco de seu trabalho. O foco está superando a meta de vender produtos e caminhando para a oferta de serviços.” 
O químico vai além e provoca: por que não vender, em vez de um par de sapatos, o serviço de proteção aos pés? Isso tiraria, segundo ele, o foco do produto e permitiria ao fabricante criar soluções passageiras e mais eficazes. E que pudessem, ainda, ser reincorporadas à cadeia produtiva. “A lógica de ter uma equipe de marketing preocupada em convencer o consumidor a comprar um par de sapatos atrás do outro é estúpida.”

A proposta de Braungart e McDonough, ainda que um tanto utópica, está em linha com o que se discute no mercado de reciclagem de eletroeletrônicos hoje. No centro das discussões está a logística reversa: os fabricantes tornam-se responsáveis por fazer com que os seus produtos, quando descartados, sejam reciclados e aproveitados no processo de fabricação de novos gadgets. No Brasil, alguns grandes fabricantes oferecem a opção ao consumidor. É possível, com alguma burocracia, devolver seus equipamentos antigos a quem os colocou no mercado.
O governo, por sua vez, regulamentou a questão em 2010. O então presidente Lula sancionou, em agosto daquele ano, a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Pela lei, que passa a vigorar em 2014, os diversos setores da economia devem oferecer produtos, da embalagem à sua composição, que sejam facilmente reincorporados à cadeia de produção. À indústria eletroeletrônica, cabe colocar em pleno funcionamento um sistema que permita ao consumidor devolver o produto que não quiser ou puder mais usar, para que seja reciclado. O desafio, que ainda inclui a participação dos governos estaduais e municipais, é estimular a população a reciclar esse material – sobretudo o lixo eletrônico.
Essas iniciativas, tímidas, ainda estão longe de resolver o problema. Mais do que leis, é preciso uma mudança na mentalidade do consumidor. “O Brasil não tem escala de reciclagem de eletroeletrônicos e acaba exportando parte do material que recolhe para outros mercados”, afirma Vilhena, do Cempre. Quem determinará a intensidade e duração dessa revolução, porém, é a indústria. Isso, claro, se ela estiver disposta a abandonar a obsolescência como estratégia de negócios, e passar a oferecer produtos com um prazo prévio em sintonia com uma natureza que não produz lixo.

Texto por Eduardo Duarte Zanelato Fotos Andrew McConnell

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Fechamento dos lixões até 2014 precisa entrar no debate das eleições municipais

Alana Gandra
Repórter da Agência Brasil



Rio de Janeiro – Especialistas ouvidos pela Agência Brasilalertam que o debate eleitoral deste ano precisa discutir a coleta de lixo nos municípios brasileiros, porque caberá à próxima gestão cumprir a disposição da lei que implantou a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e que manda fechar todos os lixões do país até 2014, entre outras obrigações. A falta de cumprimento da norma pode punir o município.
Outro prazo estabelecido pela lei, prevendo para 2012 a elaboração do plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos, não vem sendo cumprido na maioria das cidades. Segundo o diretor de Mobilização da Fundação SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, até o momento, menos de 100 municípios brasileiros elaboraram seus planos de gestão. A falta de cumprimento do prazo impede o acesso dos municípios a financiamento para projetos de limpeza urbana. 
Mantovani lamentou que não tenha observado, neste ano eleitoral, nenhum candidato se manifestando sobre o tema. “Está muito fraco esse movimento, diante de uma lei que ficou rodando [quase] 20 anos, por causa de todos os lobbies contra, principalmente  a questão da logística reversa”, explicou. A lei foi aprovada em 2010, após tramitar durante 19 anos no Congresso. A logística reversa impõe que fabricantes de produtos como pilhas, baterias e pneus sejam responsáveis pela coleta do resíduo descartado.
Nesse quadro, Mantovani considerou que “ou a gente se mobiliza e muda essa história ou 2012 é uma data que pode virar uma ficção”. O mais importante agora, disse à Agência Brasil, é buscar o compromisso com os candidatos e cobrar. Com a Lei Complementar 140, que atribui aos municípios a gerência das questões ambientais locais, o ambientalista assegurou que as prefeituras não terão mais desculpa  para não dar uma destinação correta aos resíduos sólidos. “O prefeito vai responder por isso, fazendo ou não fazendo”.
O diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), Carlos Silva Filho, sugere que os eleitores cobrem o cumprimento do que determina a PNRS sobre gestão adequada e sustentável de resíduos   pelos municípios. A gestão dos resíduos é responsabilidade das administrações municipais e deve atender ao prazo previsto na legislação, em especial o fechamento dos lixões até 2014.
Para Carlos Silva Filho, os resíduos sólidos têm um impacto grande na vida das pessoas e, por isso, elas  devem estar atentas  para que os programas dos candidatos incorporem essa temática. “O tema da sustentabilidade ganha proporções especiais, porque ele deixa  de ser um acessório e passa a ser, realmente, uma condição para a própria sobrevivência da sociedade e das cidades”, disse Silva Filho.
A PNRS prevê também o aproveitamento econômico dos resíduos sólidos, com prioridade para a reciclagem. A presidente da Cooperativa Reciclando para Viver, Claudete Costa Ferreira, reivindicou que o tratamento do lixo seja tratado como uma política pública pelas prefeituras, para implantação da coleta seletiva. “É o sonho do catador que um prefeito se volte realmente para as políticas públicas  que priorizem a coleta do lixo e os direitos do catador”, disse à Agência Brasil.  
Claudete Ferreira recebeu prêmio da organização não governamental Mulheres da Europa por um Futuro Comum (WECF, da sigla em inglês), que destaca a contribuição das mulheres para a sustentabilidade e a equidade econômica, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, no Rio de Janeiro, em junho deste ano.  O prêmio foi entregue pela   ministra do Meio Ambiente da Islândia, Dóris Leuthard.
Edição: Davi Oliveira